Bons e velhos tempos da fotografia digital

Acho engraçado quando o sujeito enche a boca pra dizer que sua foto “não tem photoshop”, como se isso atestasse que ele é melhor que os outros. Na verdade ele está apenas abrindo mão de uma das melhores ferramentas disponíveis para a pós-produção.

Um leitor babaca mandou uma pegunta para a seção Tech Tips da revista Outdoor Photographer, talvez esperando uma resposta que elogiasse seu “purismo” fotográfico, que se nega a usar o photoshop.

Eis a pergunta do leitor e a resposta do fotógrafo George Lepp:

Bons e velhos tempos da fotografia digital

Parece que toda matéria que eu leio fala sobre pós-produção com Photoshop, Lightroom e outros softwares. Teria a era do talento fotográfico acabado e agora o sucesso é determinado por habilidades de artista gráfico?
Uso uma velha Rebel XTi com uma variedade de lentes Canon e consigo produzir fotos de qualidade, impressas diretamente do cartão CF; algumas inclusive ganharam prêmios! Estou sempre tentando melhorar minha técnica e estilo, mas tenho sido ‘engolido’ pela grande quantidade de pós-produção que parece ser a regra dos dias de hoje.
Existe ainda uma esperança para nós, que ainda desfrutamos do desafio de capturar o que vemos com o que temos nas mãos?

C. Jensen

Aaah, o mito dos bons e velhos tempos da fotografia, quando os fotógrafos eram avaliados por suas habilidades atrás do visor da camera. Bem, não exatamente.
A foto impressa que era avaliada, não o negativo. Costumávamos fazer nossa pós-produção do filme na sala de revelação ou pagávamos para aguém fazer.

Pense no purista da fotografia em preto e branco, Ansel Adams. Ele considerava a captura apenas metade do processo. Ele reinterpretava suas imagens diversas vezes com as técnicas feitas na sala de revelação, que melhoravam a qualidade, mudavam o clima e reconduzia a realidade da cena que ele fotografou.

Faça uma pequena pesquisa e você achará a prova de contato da famosa fotografia “Moonrise, Hernandez, New Mexico”. Bem tediosa. Adam trabalhou na impressão dessa foto por décadas e, no fim das contas, a impressão final nos mostra que tipo de fotógrafo e artista Adam realmente era.

Mas você está na era digital usando a sua “velha” Rebel. E, assim como na época do filme, sua câmera tem limitações que devem ser superadas; você, como um bom fotógrafo, usa essas limitações para desafiar suas habilidades. No entanto, seu arquivo digital ainda precisa de algum “processamento” antes que ele esteja preparado para ser mostrado ao público.

Se você captura em JPEG, sua câmera já estará realizando alguns pós-processamentos necessários internamente. Se captura em RAW, você deve fazer alguns ajustes, como sharpen, para perceber o potencial básico da sua imagem.

Até mesmo as mais caras e modernas DSLRs produzem imagens que precisam de uma pós-produção básica. Se você não quer fazer, tudo bem. Mas eu esperaria de qualquer bom fotógrafo que deseja capturar o que é visto no visor (junto com toda experiência sensorial que a cena envolve), também superar as limitações da câmera, sabiamente fazendo uso de programas de pós-produção para corrigir algumas anomalias na exposição, cor e nitidez, no mínimo.

Em todo seminário que dou, pergunto quantas pessoas odeiam passar o tempo na frente de seus computadores, e uma grande maioria geralmente levanta a mão. Eles querem gastar seu tempo lá fora, explorando a natureza e objetos a serem fotografados, buscando a luz perfeita numa vasta paisagem ou uma expressão num animal selvagem. Não tenha dúvidas quanto a isso, nós, fotógrafos ‘outdoor’, obtemos a maior satisfação no momento do disparo, no momento decisivo, na composição perfeita.

Ainda há esperança para você, que termina a experiência fotográfica logo após o disparo? Claro que há. Você continuará desfrutando do momento decisivo, mas tem um preço. Quando você abandona sua fotografia logo depois de capturá-la, você deixa a criação pela metade. Se quiser extrair da foto todo seu potencial, deve exercitar o controle que os programas de pós-produção dão a você.

É um fato que na fotografia dos dias de hoje, sua criação pela metade competirá com fotógrafos que superam os limites dos seus equipamentos, usando as ferramentas de pós-produção que estão disponíveis. E eu não me refiro a artistas gráficos, eles têm uma visão diferente, mesmo usando algumas das mesmas ferramentas que os fotógrafos usam.

Eu e minha esposa acabamos de finalizar nosso livro mais recente, chamado “Wildlife Photography: Stories from the field”, que é uma retrospectiva das minhas imagens favoritas da vida selvagem e como nós a capturamos. Não há pós-produção discutida no livro! Amei trabalhar nesse livro porque me levou de volta ao campo de atuação, onde eu (e meus temas selvagens) vivemos a emoção da experiência fotográfica.
Apesar de tudo que eu disse acima em resposta à sua pergunta, é no campo de atuação que eu realmente quero estar também.

George Lepp

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